Anacrônico
O gênero ameaçado pelas suas próprias virtudes
Cinco minutos no Instagram, mais um tempinho nos jornais—O Globo, o FT, o Guardian, a Folha—outros cinco no finado Twitter. O café acaba e sobra um monte de coisa: receita de abobrinha desnecessariamente proteica, a guerra no Irã, mais uma derrota inexplicável do Atlético, o Supremo Tribunal Federal. Há jornalismo, há entretenimento (de maior e menor qualidade), e pululam uma quantidade exagerada de opiniões. Em 2026, no entanto, falta crônica.
Para ser preciso, falta cronista—esse repórter do banal, que congela uma cena mundana, faz o tempo decantar, e marina no processo as suas divagações. Em uma entrevista, a Lygia Fagundes Telles disse que o escritor é uma testemunha do seu tempo: uma definição que é ainda mais precisa para o cronista, que é um perito do efêmero. Não por acaso, a palavra crônica vem do grego cronos, que significa tempo.
Consta que o gênero surgiu na França, mas ganhou relevo mesmo na América Latina e especificamente no Brasil, onde sujeitos do quilate de Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga o transformaram em literatura de primeira linha. É um nicho portanto essencialmente nosso, o que eu descobri quando cheguei em Londres—para a surpresa característica do vira-lata caramelo que precisou sair da caverna para ver a caverna. A literatura e o jornalismo britânico são de qualidade inquestionável, a gente sabe, mas parece que ninguém tem a aptidão e o cinismo para se debruçar no cotidiano e extrair dele humor e reflexão como o brasileiro. Suspeito que nossa respeitável proficiência em memes venha daí, aliás.
Na crônica, tudo serve como tema, desde que observado com ternura: um espresso que lamentavelmente veio sem pires, um céu demasiadamente cinza na terça-feira, uma crítica culinária mais caprichada que o próprio prato. A crônica é o lembrete do valor de se observar o óbvio sem a pretensão de descartá-lo— e, sobretudo, de notar antes de opinar, e de praticar um gesto tão elegante quanto subestimado hoje em dia, que é o ato de pensar com calma, esse sacrilégio.
Estilisticamente, trata-se da convergência entre a literatura, o entretenimento e o jornalismo. Da primeira, a crônica herda o cuidado com o ritmo, o respeito pela forma. Do segundo, toma emprestado a narrativa, o apreço pela história bem contada. Do jornalismo, traz o mundo concreto: a fila, o ônibus, a política miúda. O bom cronista não se contenta em relatar, mas também não se refugia na abstração pura: circula nesse entrelugar em que um detalhe no elevador pode dizer mais sobre a sociedade do que muita pesquisa acadêmica ou reportagem investigativa.
Apesar de todas essas virtudes, a verdade infeliz é que parece que o cronismo está morrendo, silenciosamente. Como resultado provavelmente da overdose de estímulo e da ânsia coletiva em alcançar respostas antes de cultivarmos as perguntas, estamos sufocando a nossa capacidade de notar. Entre a receita cheia de cortes rápidos demais da abobrinha e as palavras de ódio ao Alexandre de Moraes, ninguém tirou três minutos para olhar ao redor. Refletir se tornou anacrônico e, como resultado (e com o perdão do trocadilho preguiçoso), os nossos feeds ficaram sem crônica.
A ironia é que, em tese, o gênero deveria sobreviver bem à carnificina da atenção. É por natureza um texto breve, portátil, compatível com a limitação cognitiva de uma época em que é preciso otimizar o tempo para desperdiçá-lo depressa. Mas está sucumbindo mesmo assim. Um dos motivos é que a crônica pressupõe um leitor que está disposto a não saber para onde vai, e esse é um tipo que—com a exceção dos zagueiros do Atlético—parece cada vez mais raro hoje em dia, afinal.
Suspeito que seja também porque prevalecem os comentaristas—essas criaturas urgentes, ansiosas, que narram o mundo como quem grita “olha!” o tempo todo, sem jamais pararem para ver. Enquanto o cronista parte de uma fresta do cotidiano para chegar a alguma forma exploratória (mas despretensiosa) de entendimento, o comentarista parte de uma tese e procura os fatos que caibam nela, com a pretensão do especialista. O comentarista vence na batalha da dopamina porque entrega, em uma história supostamente completa, um resultado pronto, enquanto o cronista parte apenas de uma cena, e se preocupa mais em oferecer companhia no percurso a ser desbravado do que qualquer outra coisa. Em muitos sentidos, no contraponto ao comentarista, o cronista é o palestrinha ao contrário—uma figura portanto muito bem vinda hoje em dia, obrigado.
Quando Luis Fernando Veríssimo morreu no ano passado, não se foi apenas um dos nossos maiores cronistas. Partiu um dos últimos falantes desse idioma em extinção, que combinava humor, sobriedade e uma recusa teimosa ao espalhafato. Veríssimo — que, aliás, ao ser chamado de tímido, disse que as pessoas é que falam demais—representava uma forma de tratar do mundo com acidez mas sem o desespero do engajamento. O sucesso vinha do texto bem afiado, não da insistência ou da gritaria, muito menos das pausas dramáticas—francamente patéticas—que os posts inteiramente (mal) feitos no ChatGPT agora multiplicam para todo lado.
Paradoxalmente, crônica como adjetivo, como em dor crônica, também descreve aquilo que não vai embora—o que persiste, teimosamente, apesar do tempo. Há nisso uma ironia dupla à altura do gênero, no seu próprio leito de morte: o recurso literário que melhor captura o tempo é também aquele que parece mais ameaçado por ele. Vida longa.
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O digno, correto mesmo, seria responder com o emoji de olhos arregalados, de antecipação polissêmica: tô ansiosa pelo que vem por aí! Mas como essa caixinha, tal qual São Paulo faz com as havaianas, constrange o internetês, vou contar que essa edição me lembrou uma coisa em que eu não pensava há séculos. Na casa da minha avó, nos 90 quase 00, assinava-se a veja. Eu era pequena, não entendia nada, mas gostava de ler 2 seções: as frases da semana (aspas fortes recortadas de seu contexto - a mais célebre e memorável sendo a da Xuxa: “no Brasil não há homem para mim”) e a crônica, que vinha justo na última página, como um arremate. Eu amava, mesmo criança demais pras sutilezas. Não lembro de resgatar essa memória nem quando eu passei pela veja (ocupada demais sofrendo com o assédio moral em nome do jornalismo de caráter duvidoso). Que bom lembrar agora! Obrigada!
👀
Emocionada com sua crônica. Como admiradora desde sempre do gênero, fico feliz que o esteja resgatando.
Que a IA não nos ouça, mas ela não consegue...